Storytelling #49 - O Advogado do Diabo

 
Tue, 26 January 2021 | ##madreteresa #story
"I think if we didn't contradict ourselfs, it would be awfully boring. It would be tedious to be alive."
Paul Auster

O Povo utiliza, frequentemente, a expressão de “advogado do diabo” para caraterizar a pessoa que defende pontos de vista diferentes, ou que apresenta um argumento contrário aos outros com a finalidade de testar opiniões divergentes.

Sabia que os “advogados do diabo” existiram na realidade? Dentro da Igreja Católica existia uma figura intitulada, em latim de - advocatus diaboli – a qual foi criada formalmente na instituição.

De facto, em 1587, a Igreja Católica estabeleceu o papel do advocatus diaboli como parte do processo de decisão que conduzia a declarar alguém de ‘santo’. O objetivo deste papel era apresentar contra evidências, erros ou lapsos nos factos apresentados como milagres. Um dos exemplos mais famosos foi quando um jornalista ateu, Christopher Hitchens, foi convidado a testemunhar contra Madre Teresa.

No famoso artigo “O Demónio de Calcutá”, o jornalista Christopher Hitchens chegou mesmo a escrever que as palavras de Madre Teresa eram a prova de que esta não pretendia ajudar os mais pobres. De acordo com o jornalista, Madre Teresa teria mesmo mentido sobre o verdadeiro destino das ajudas que recebera. Apesar destas duras criticas, o jornalista foi o único a ser chamado ao Vaticano como testemunha nos processos de beatificação e canonização da religiosa.

Isso foi feito com um único objetivo. O de justificar de forma sólida os méritos do candidato. Essa função foi criada pelo Papa Sisto V e, inicialmente, tinha o nome de - “Promotor da Fé” – cuja responsabilidade era manter uma postura cética face às evidências, e argumentar contra os milagres atribuídos através da procura de falhas no histórico do candidato.

Esta postura crítica contra a canonização tinha como intenção final manter a lisura da Igreja Católica. No entanto, com o tempo, estas pessoas foram, informalmente, recebendo o nome de “advogados do diabo”. Este cargo foi, posteriormente, abolido da instituição com o Papa João Paulo II.

Atualmente, temos a consciência que as posições contraditórias funcionam como um antídoto para um alinhamento, por vezes, excessivo, colocando à prova decisões consensuais. Este tipo de processos é utilizado para testar a qualidade de um argumento e identificar erros que antecipem a falta de sustentabilidade de uma potencial decisão.

O que a Igreja percebeu há muitos anos atrás, foi que as equipas não aprendem sem que exista alguém que que ‘esteja do contra’, e com ideias alternativas. Se isso não estiver garantido, existe um risco enorme de se tomar uma má decisão e se cometerem grandes erros. Atenção, porque muitas equipas interpretam mal o papel de advogado do diabo. Em vez de criarem este papel para alguém melhorar as decisões e os resultados, por vezes ficam limitadas a alguém que, face ao seu poder argumentativo, só acentua o conflito.