Storytelling #48 - 2020. Histórias de heróis que cuidam de nós.

 
Tue, 29 December 2020 | ##covid #crisis #history
"They may forget your name, but they will never forget how you made them feel."
Maya Angelou

Itália talvez tenha sido o Pais que mais sofreu no início da pandemia, em Março de 2020. Os médicos italianos que estavam na linha de frente na luta contra o coronavírus dizem que o cenário era de guerra. Tinham de tomar decisões de triagem rápida como na guerra – e decidir quem salvar, e quem não se podia salvar. Estiveram muitas vezes ao lado de doentes durante os minutos finais das suas vidas para os ajudarem a enviarem as suas últimas mensagens para família. E tiveram de lidar com seu cansaço físico e mental, muitas vezes levado a situações extremas com hospitais sobrecarregados e com poucas horas de descanso.

“Cada dia é uma batalha”, diz Sergio Cattaneo de 45 anos, médico anestesista especialista em cirurgias cardíacas que integra o hospital Spedali Civili em Brescia, no norte da Itália, uma das cidades italianas mais atingidas pelo surto do coronavírus. Mais a sul, em Perugia, Paolo Groff de 55 anos, diretor da urgência do hospital Santa Maria della Misericordia, fala sobre a tristeza de observar doentes num estado emocional fragilizado - “Eles mal falam porque estão paralisados ​​com o medo”, diz ele. “Eles estão isolados, e não podem ver nem falar com as suas famílias”.

Cattaneo e Groff partilharam que as unidades de cuidados intensivos dos hospitais em que trabalham mal conseguiam lidar com o que estava a acontecer. Não existiam médicos e enfermeiras suficientes, nem ventiladores para salvarem vidas. Nem mesmo simples aventais para protegê-los da doença que estava naquela fase a ser fatal para quase 10% dos italianos contagiados. Pior que isso, é que a COVID-19 estava também a matar alguns dos seus colegas. Poucos dias antes desta entrevista, foi confirmada a morte de 19 médicos italianos, no meio de um grupo de 5.000 profissionais de saúde infetados, e que tiveram de ficar em quarentena.

Para superar esta dificuldade, muitos médicos e enfermeiras reformados voltaram para ajudar na linha da frente. Foi o caso de Giampiero Giron, um anestesista de 85 anos, professor da Universidade de Pádua e membro da equipa que realizou o primeiro transplante de coração em Itália em 1985. Ele tornou-se uma espécie de herói nacional quando mais uma vez vestiu as roupas verdes, tendo a perfeita consciência que o coronavírus pode ser implacável para quem tem mais de 80 anos. Numa entrevista aos jornais italianos disse com simplicidade - “Eles pediram a minha disponibilidade e eu disse que sim”. “Quando tu decides ser médico na vida, tu ficas envolvido. Eu fiz um juramento. Se tenho medo de ficar doente? Não! Então seria melhor não ser médico.”

As equipas de saúde permaneceram resilientes, e mesmo otimistas, apesar do cansaço. Muitas fábricas dedicadas à moda decidiram-se fazer máscaras faciais e equipamentos de proteção, outras empresas do ramo automóvel dedicaram-se a fazer ventiladores, enquanto empresas de produção de bebidas produziram gel desinfetante para as mãos. As pessoas foram todos os dias à varandas aplaudir e agradecer aos profissionais de saúde, transmitindo-lhes energia e motivação nesses momentos difíceis. Cattaneo ficou muito grato quando uma empresa na área da tecnologia ofereceu vários tablets para o seu serviço de cuidados intensivos o que permitiu que “As famílias pudessem ver os doentes, nem que fosse pela última vez”.

Mas nem o Dr. Groff nem o Dr. Cattaneo afirmam que o trabalho árduo e doloroso os limita – “sabemos que temos em mãos tarefas vitais.”

“Não estou nem um pouco deprimido”, diz Groff.

“Estamos somente a fazer nosso trabalho. Sou otimista, os números estão a melhorar, embora tenhamos muitas semanas pela frente.”, diz Cattaneo.

*Esta pequena história e testemunho é um exemplo daquilo que muitos médicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos e gestores nos hospitais viveram e ainda vivem pelo mundo fora. Profissionais dedicados a um propósito comum, e comprometidos com o bem maior. Fazem tudo isso sacrificando as suas famílias e correndo riscos dia após dia. Para eles o nosso obrigado!